Revendo a lida e a alma - Quem eu sou (agora)?

19/08/2016

Saí do apartamento próprio em um condomínio-clube da Zona Sul de São Paulo para morar de aluguel em um sobradinho num bairro comum. Tirei meu filho do colégio particular e o matriculei na escola pública. Passei a visitar com muito mais frequência as lojinhas de variedades a partir de R$ 1,99 e lojas de roupas a partir de R$ 12,00.Aprendi a viver com menos e, graças a Deus, tenho tudo o que preciso. E não, não foi culpa da crise. Foi uma escolha.

Antes que você continue este texto e tire suas conclusões e julgamentos, é importante que saiba uma parte crucial da minha história que me levaram a estas decisões:

Eu trabalhava em São Paulo, em grandes centros empresariais, locais com grande circulação de empresários e pessoas com objetivos profissionais audaciosos. Convivi com muita gente boa que se tornaram meus amigos, mas também convivi com pessoas que não mediam esforços e nem limites (inclusive éticos) para "chegar lá". Essa convivência com o segundo grupo me incomodava, fazia eu me sentir um E.T.; por diversas vezes me questionei se para ter sucesso profissional eu precisaria ser como eles e atropelar quem estivesse no meu caminho. Isso era inadmissível para mim, então tornou-se uma árdua rotina fazer o meu trabalho corretamente e manter o equilíbrio me posicionando de maneira a não ser engolida pelos lobos sedentos pelo meu cargo e nem me tornar carrasca de ninguém. 


Quanto mais me adaptava ao jogo para me manter no mercado e crescer na carreira de Controladoria, Custos e Finanças, menos eu convivia comigo mesma e com as pessoas que mais amava. Me questionava todos os dias dentro do trem lotado sobre o "por que" de tudo aquilo; de todo aquele teatro que algumas pessoas faziam diante das outras; se eu não era uma delas interpretando um papel diário também; se eu queria ter aquele semblante triste e cansado que carregava; se todo aquele sofrimento que eu trazia no peito não era fruto de más interpretações minhas; sobre "por que" a vida não podia ser mais leve; sobre a causa da minha instabilidade emocional; sobre o trabalho que eu teria que executar ao chegar na empresa e sobre não fazer a menor ideia de que horas eu conseguiria ir embora de volta para casa.

Isso me assustava tremendamente, mas eu já estava no meio do caminho daquela carreira e não fazia a menor ideia sobre como dizer em alto e bom som a mim mesma que eu simplesmente não queria estar ali (mas que também não fazia a menor ideia de onde é que eu gostaria de estar).

Aquele caminho que eu estava construindo era conhecido e "seguro", receita de sucesso desejada por muita gente, e tudo indicava que se eu continuasse a segui-lo seria uma mulher admirada, bem-sucedida (mas destruída por dentro, quiçá, louca).

Sou grata a essa fase da minha vida. Conquistei conhecimento, habilidades, resiliência e bens materiais. Foi através deste período árduo que consegui comprar meu apartamento, carro, eletrônicos. Tudo o que uma jovem pobre da periferia sonha em ter. Eu me orgulho destas conquistas. Mas paguei um preço alto em troca e hoje descobri que poderia ter conquistado as mesmas coisas de infinitas maneiras diferentes.


E assim, mesmo a contra-gosto eu continuei naquele ritmo louco de vida. Era 2011 e eu trabalhava 10h, 12h, 16h, por dia. Trabalhava finais de semana e feriados. Emendava semanas sem folga. Algumas vezes, tive minhas férias adiadas até o limite máximo permitido por lei . 


Lembro que em uma destas vezes, às vésperas recebi a notícia de que minhas férias seriam pagas, mas que eu precisaria adia-las por pelo menos 10 dias. Eu já estava com as férias planejadas! Havia combinado com a moça que cuidava do meu filho que ela também ficaria de férias e ela programou viagem para resolver problemas pessoais. Não havia ninguém de confiança que pudesse cuidar do meu filho. Era Janeiro, procurei berçários que funcionassem nas férias escolares e não encontrei nenhum com pacote de "diárias". Além disso, quem é mãe / pai sabe que não é tão simples assim deixar seu filho pequeno num lugar completamente novo do dia para a noite, existe todo um período para adaptação. Então, a empresa propôs me buscar e levar em casa de táxi com meu filho e disponibilizar uma babá para ficar com ele na sala de reuniões enquanto eu trabalhava - sem horário certo para sair. Meu filho dentro da empresa O DIA INTEIROOOO!!!! 


Alguns podem pensar: "Nossa, mas que empresa "mãezona"! Que lugar legal para trabalhar! Mas qual Analista não gostaria de trabalhar em uma empresa assim?" 


Eu não. Obviamente não aceitei a proposta. Encontramos outro modo e a empresa pagou para a babá do meu filho por 10 dias o que pagava por um mês inteiro, e assim, ela aceitou adiar suas férias junto comigo.
Se eu tivesse aceitado a proposta de meu filho ficar dias inteiros na empresa, estaria ferindo o direito dele a uma infância em paz. Uma vez que eu flexibilizasse algo do tipo, a empresa sempre se sentiria confortável em propor esse tipo de "escravidão velada" não só a mim, mas a outros funcionários. Estaria ferindo meu direito a trabalhar e produzir sabendo que meu filho estava bem cuidado em um ambiente acolhedor e próprio para o seu desenvolvimento; Esmagaria mais uma vez, meus próprios valores pessoais e profissionais.


Esta não foi a primeira e nem última vez que as empresas colocaram meu filho no papel de "problema a ser urgentemente resolvido". Inúmeras vezes me peguei pensando até que ponto isso foi minha culpa, pensando nas vezes que errei com meu filho admitindo que elas (as empresas) é que estavam certas, que era eu que não estava sabendo manter meu filho suficientemente fora de cena para não "atrapalhar" meu trabalho e carreira. 


Quantas e quantas vezes eu evitei até o limite máximo precisar sair do trabalho antes do horário, para socorrer meu filho em suas crises de alergia nos olhos (ele sofria de dermatite atópica na membrana transparente que protege os olhos, uma doença inflamatória crônica que provoca conjuntivites alérgicas recorrentes). Quantas e quantas vezes passei a madrugada acordada cuidando dele doente e preocupada com o volume de trabalho que tinha para entregar no dia seguinte na empresa. Quanta culpa por não cuidar melhor dele me deixando levar pela desculpa justificável de que eu não tinha outra opção...


Ao ser tão dura comigo, eu não percebia que era ainda mais dura com a pessoa que, em hipótese alguma, tinha culpa de tudo aquilo: meu filho. Mas todo aquele sacrifício não era por ele? Para dar um futuro digno, uma casa num lugar bacana, pagar bons estudos, roupas legais, não deixá-lo passar vontade de nada, oferecer segurança financeira, acesso a tecnologia e tudo mais que o dinheiro pode bancar? Sim, era tudo por ele, mas o principal eu não conseguia lhe dar: meu amor incondicional de balde e não em conta-gotas. 


Quando a situação começou beirar o insustentável, passei a ser negligente hora com o meu filho, hora com o trabalho e comigo então, nem se fale! Na minha cabeça eu tinha que dar conta de tudo e fazer tudo com excelência, como tanta gente faz. Chegar mais cedo no trabalho, sair mais tarde, entregar sempre além do esperado, nunca faltar, abraçar novos projetos (não importava quão atolada de serviço eu estivesse), estar constantemente atualizada, não levar problemas de casa para o trabalho e vice-versa, dar atenção à família e tarefas do lar e sempre com bom-humor... 


A receita para entrar em depressão deu certo. Para aguentar tudo aquilo com a "excelência esperada", passei inconscientemente a ignorar e rejeitar toda e qualquer forma de sentimento e maior envolvimento emocional. Há fatos da minha vida pessoal desta época que eu literalmente não vivi. Não me lembro de detalhes e histórias importantes. Não tenho fotos e nem lembranças de momentos especiais por que simplesmente eu não participei deles. Onde eu estava? Ocupada demais trabalhando no fim de semana.
As lembranças que guardo de pelo menos 3 dos meus aniversários são fazendo inventário num chão de fábrica até 1h da madrugada, apressada para finalizá-lo e liberar os demais envolvidos para irem para suas casas. Meus 20 e poucos anos escorreram pelos meus próprios dedos. Não comemorava mais, não me divertia mais, não sorria mais, não chorava mais, não sofria mais, não sentia mais. Que tipo de pessoa eu estava me tornando naquela casca?

Aos 26 anos, meu semblante já havia mudado completamente. Eu parecia uma senhora sofrida.

Certa vez, um diretor de outra área que não a minha, me viu passar apressada e me chamou em sua sala para me perguntar se eu estava bem, se eu queria conversar. Eu respondi que estava tudo bem sim e já lhe dei as costas apressada para não chorar na sua frente. Aquela simples pergunta e sinal de compaixão de um verdadeiro grande líder, me implodiu. Caiu como uma bomba em mim, eu não estava nada bem. Eu não tinha vida. Não convivia mais com as pessoas que amava, não fazia mais as coisas que gostava, só via meu filho acordado aos finais de semana, não podia combinar horário com meu marido após o expediente, almoçar no escritório fazia parte da minha nova rotina...

O que eu estava fazendo comigo? Tentei outras empresas e era exatamente igual. Por que todo mundo no meu setor / área também vivia assim e não achava estranho? Tudo o que eu mais queria era largar tudo aquilo e sair correndo para casa abraçar meu filho e marido e viver uma vida simples, sem tanta cobrança, stress e status.

E de tanto desejar, um dia isso aconteceu. Depois do último episódio de assédio moral, saí da empresa e fiquei vagando na rua durante algumas horas, depois fui direto para ser medicada numa clínica médica em crise de estresse agudo, e da clínica, direto para uma depressão que me fez ficar 2 anos em casa em tratamento, tentando me encontrar, me obrigando a ter uma vida mais simples e leve.


Sou extremamente grata a este período também, foi nele que conquistei o que o dinheiro não compra. Retomei minha sensibilidade, aprendi a gostar de conviver comigo, aprendi a demonstrar meus sentimentos, aprendi a ser mãe, ser esposa, ser filha, amiga, irmã. Aprendi a me apresentar a alguém sem precisar falar em que empresa eu trabalhava ou o meu cargo. Passei a ter interesse sobre o que compõe a biografia de cada indivíduo. Aprendi sobre empatia. Conheci pessoas que me mostraram que eu sempre tenho opções. Pessoas que me mostraram sem querer, que tipo de ser humano quero ser enquanto ainda cresço e aprendo.


Não quis mais voltar para minha antiga carreira no mundo corporativo e me encontrei no empreendedorismo.

Como disse no início do texto, por opção, troquei a vida em um badalado condomínio-clube bem localizado pela experiência de morar em um sobradinho de uma vila onde todo mundo se conhece. Estou desenhando o estilo de vida que sonhei e trabalho com o que amo. Acordo ás 6:30h, faço uma oração e logo ouço o som dos pássaros enquanto o Sol aponta em minha janela do quarto. Tomo café da manhã com meu filho, levo ele a pé para o curso de educação complementar. Lá ele tem aula de teatro, dança, música, informática, cidadania e complemento à escola. Retorno para casa fazendo caminhada e ao chegar, me arrumo, faço minha meditação e começo a trabalhar. Perto da hora do almoço vou buscá-lo e almoçamos juntos. Mais tarde o levo a pé para a escola (um colégio-modelo da Prefeitura de excelente qualidade), volto para casa e continuo o trabalho home-office atendendo clientes online e produzindo conteúdo. Ao fim da tarde, meu esposo chega do trabalho, conversamos, tomamos café da tarde juntos e ele busca nosso filho. Ao retornar, enquanto ajudo o filhote com a lição de casa, meu esposo se dedica ao seu negócio de marmitas fitness que toca em paralelo com o emprego formal. Depois nós três conversamos sobre o dia, damos risadas, jantamos à mesa com a televisão desligada. Brincamos, falamos besteira, curto meu marido e vamos dormir. Estou aprendendo a cuidar de plantas, tenho tempo para leitura e estudar assuntos que amo. 

Cuido das tarefas domésticas no meu tempo, sem tanta exigência comigo mesma. Assisto filmes, vou a passeios, viajamos uma vez por ano, visitamos familiares... 


Quanto mais me conscientizo sobre a raridade da vida e a importância dos relacionamentos, da comunicação não-violenta, da autogentileza e do autoconhecimento, menos os bens materiais comandam a minha vida. Hoje dou a objetos a importância de objetos. Passei a valorizar e prezar o estilo de vida mais simples que me proporciona algo incrível: liberdade.

Aprendi a comprar coisas só quando preciso, priorizando o orçamento para aquilo que realmente importa. Não desperdiço dinheiro com futilidades e o planeta agradece.

Aprendi a frequentar lojas mais simples, "do povão". Descobri que tem coisas muito legais e me surpreendi com a qualidade de alguns itens. Descobri que não preciso pagar R$ 30,00 em utensílios de cozinha da Etna e nem R$ 50,00 em uma regata básica da Hering. Amo presentear e quando faço, também procuro o melhor mas dentro do meu orçamento, não pretendo impressionar ninguém com coisas que não estão dentro da minha realidade.

Continuo ambiciosa em termos de crescimento profissional, mas simplifiquei a minha vida para tirar o máximo do mínimo.

Vivo com menos e poupo o excedente para planos de médio prazo. Observo e me importo com pessoas, principalmente as que amo. Meu mantra agora é viver cada momento com intensidade e autenticidade. Invisto minha energia e tempo nas minhas prioridades: Deus, eu mesma, minha família, qualidade de vida, bem-estar e pequenos prazeres do cotidiano. Não faço mais nada com o objetivo de impressionar quem no fundo, não está nem aí para mim. Filtrei companhias e me afastei dos curiosos e mal humorados de plantão. Aprendi o valor do amor e das verdadeiras amizades pois quando perdi tudo, foi só isso que me sobrou.

Em tempo, me encontrei. Pude perceber quão tênue é a linha que divide a sanidade da loucura. Percebi como é fácil perder-se de si. Percebi quanta gente está perdida de si mesmo e não faz ideia disso! Quanta gente precisando de ajuda e arrotando autossuficiência...

Estou em um novo ciclo, onde o Respeito e a Paciência são convidados especiais e a Liberdade é rainha. Meu trabalho é uma extensão e expressão de quem eu sou, mas não é tudo o que sou. Tenho vários alicerces. Preciso das outras faces de mim para ser completa.

As escolhas que faço hoje são baseadas em valores de vida e não mais exclusivamente no dinheiro. Aprendi que ele é uma consequência e que a abundância que necessito já existe, acessível. Entendi que não adianta encher meu filho, minha casa, meu guarda-roupas e minha vida de coisas se eu não estiver inclusa nela. Escolhi recomeçar do meu jeito, recalcular a rota, ser feliz de segunda a segunda. 


Quero encerrar dizendo a quem está passando por algo semelhante ao meu período mais conturbado, que a vida não é feita só de dor. Não se acostume com o sofrimento. Você pode ser quem você quiser, mesmo que a princípio isso pareça frase de conto de fadas, é real. Você pode escolher a sua vida, desenhá-la de acordo com o seu significado de felicidade e sucesso. Eu como ninguém sei que assumir o controle quando está perdido parece surreal, mas ao conhecer bem todas as suas faces e capacidades, dia após dia, você irá se revestir de coragem e vontade de viver.


E você, o que tem construído na sua vida além da parte material? Para onde a sua vida pessoal e profissional estão caminhando? Elas se complementam? Você está feliz ou apenas conformado, sobrevivendo entre finais de semana?

Olá! Sou Aline Macedo e atuo como Coach de Liberdade Profissional ajudando homens e mulheres que se sentem insatisfeitos ou frustrados sobre suas escolhas profissionais a construírem uma nova carreira ou negócio leve e com significado, recuperarem sua autoestima, superarem medos e bloqueios e colocarem seus maiores talentos e paixões no mundo em forma de um trabalho que gere realização, felicidade, renda e segurança financeira.

Sempre ouvi aquelas pessoas que dão "piti" em público sendo chamadas de mal-amadas e minha interpretação sobre essa expressão, era de que o parceiro / parceira amoroso dessa pessoa não estava fazendo direito seu papel... Quando casei aos 21 anos, eu e meu esposo fizemos o cursinho de noivos e, em uma em uma das conversas com o...